Esse blog foi criado para divulgar o trabalho do Canto Cidadão, Organização Não Governamental (ONG), da qual a Drª Risadinha Risolina é voluntária. Nesta página você lerá textos que expressam as experiências que tenho vivido.



terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Renascimento


O primeiro post deste ano não poderia ser diferente. Nosso destino: São Luiz do Paraitinga, interior paulista. A cidade com 10 mil habitantes foi inundada por forte chuva no último dia de 2009 e amanheceu debaixo d’água no primeiro dia desse ano novo. O município cultiva um dos mais famosos carnavais de rua, mas infelizmente, este ano ficará sem a festa.
Houve uma morte nas imediações, mas todos os outros moradores foram resgatados no primeiro momento por praticantes de rafting, outro atrativo da cidade. “Foram os meninos do rafting que nos ajudaram com botes antes dos bombeiros chegarem”, disse uma moradora. Parabéns pessoal!Que Deus os abençoe.
Chegando à cidade ficamos impressionados com o tamanho do estrago. Confesso que fiquei receosa de que forma seríamos recebidos. Mas não poderia ter sido melhor. Foram seguidas as lições de vida, perseverança, união e amor que ouvimos e vimos.
Uma em especial me chamou muito a atenção, contada por um voluntário que ajuda com a limpeza que parece não ter fim. Um senhor disse ao rapaz que estava comovido com a união dos vizinhos e com a força para reconstruir. “Ele pensou que a vida dele tinha acabado quando se separou de sua mulher há alguns anos, mas percebeu que não era o fim. Depois aconteceram várias coisas que pareciam não ter saída. Contudo, se deu conta de que até o dia 31 de dezembro de 2009 vivia em uma cidade e no dia 1º de janeiro Deus tinha dado a oportunidade de começar uma vida nova em uma nova cidade sem ter que sair de seu canto.”
Aos 80 anos o senhor perdeu a casa, mas afirmou: “A vida é feita de grandes renascimentos.” O voluntário, que vive em São Paulo, terminou nossa conversa assim: “Toda vez que reclamar do trânsito da Marginal vou me lembrar disso.”
E foram muitas histórias de ação de graças que ouvimos de pessoas que ficaram apenas com a roupa do corpo. “O importante é a vida, o resto corremos atrás.”
Dona Goreti, moradora da cidade há quase 40 anos, não titubeou ao nos ceder o quintal de casa para fazermos um lanche. Não sobrou sequer uma lanchonete intacta em toda a cidade. Essa senhora nos acolheu com imensa sabedoria. Como mora na parte alta de São Luiz sua casa não foi muito prejudicada e sua família conseguiu dar apoio a várias pessoas. “Todos somos iguais. Recebi pessoas que eram riquíssimas e perderam tudo. Mas tenho certeza de que recuperarão em breve.”
Foi uma experiência inesquecível e que mexeu com certeza com os sentimentos de cada um dos Doutores Cidadãos que estiveram nesta cidade tão especial. Ano que vem iremos participar do tão esperado carnaval de São Luiz do Paraitinga. Como disse uma moradora. “Vocês já estão até fantasiados (rs).”
Sem contar os amigos da Assembleia de Deus, que tem oferecido chá, café, leite, pão e água gratuitamente. O trabalho e alegria da Cruz Vermelha, SOS Global, universitários, Breda, pessoal do rafting, Gaviões da Fiel, Sabesp, entre outras entidades e as centenas de pessoas que fizeram doações.

Sem falar no sorriso e abraços carinhosos das crianças. Fizemos a maior festa.
São incontáveis os momentos de emoção. Só sei de uma coisa: nunca mais seremos os mesmos depois desse dia. Há muita coisa para aprender.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O dia que Drª Risadinha chorou


*O relato a seguir é baseado em fatos reais, porém, os nomes das personagens são fictícios com o objetivo de preservar sua identidade

Como sempre, Cecília estava muito animada com nossa presença. Ela adora quando cantamos, na última visita o repertório foi dominado por Roberto Carlos. Mas também sobrou tempo para entoar um trechinho de “é na sola da bota, é na palma da mão, bote um sorriso na cara e mande embora a solidão.”
A emoção tomou conta do quarto com a canção “Nossa Senhora”. Contudo, nossa amiga não queria a felicidade apenas para si. Nos chamou para apontar que no prédio ao lado, em outra clínica, estava um rapaz que há dias ela olhava da janela de seu quarto. Como observadora atenta tinha reparado que ele raramente recebia visitas e, por isso, estava preocupada com sua solidão. O detalhe é que nossa amiga Cecília nunca havia conversado com aquele jovem que deveria ter no máximo 23 anos.
O pedido era para que fóssemos visitá-lo e assim o fizemos. Entramos no quarto e dissemos ao Daniel que ele tinha uma fã incondicional do outro lado do hospital e apontamos para a janela. Reafirmamos que pelo roteiro daquele dia não iríamos visitá-lo se não fosse a insistência da amiga oculta. Prontamente, ele quis saber quem era Cecília e olhava curioso para a janela, enquanto fazia inalação. Mas ela estava de cabeça baixa. Começamos a sinalizar e, foi então, que Cecília olhou para nós. Daí foi aquela festa, ela mandou vários beijos, fez sinais em forma de coração e abraços apertados. Até o enfermeiro ajudou com mais acenos.
Do outro lado, Daniel ficou muito feliz com a demonstração de carinho da amiga “desconhecida”. Por fim, nos despedimos.
Mais tarde, resolvemos retornar ao quarto de Cecília, que rezava de cabeça baixa e ouvia a canção do Pai Nosso “... Pai, meu Pai do céu, eu quase me esqueci, me esqueci, que o teu amor vela por mim.” Com as luzes apagadas, ela não percebeu nossa presença. Entrei antes que o Dr.Caboclinho e toquei em seu ombro, emocionada ela nos agradeceu por termos ido visitar seu amigo “desconhecido”.
E num sobressalto ela me abraçou e chorou. Só sei dizer que foi o abraço mais cheio de sentimento que já dei e recebi. Difícil engolir o choro nessa hora, a lágrima escorreu, mas no quarto escuro acho que Cecília não percebeu. Me despedi com a ajuda do Caboclinho antes que a voz embargada me denunciasse.
Ficamos muito felizes pela chance de transmitir o AMOR e testemunhar que ELE ainda paira em nosso meio unindo almas.

domingo, 18 de outubro de 2009

A Volta


“Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade”.

É com a música do Nando Cordel na cabeça que o Drº Caboclinho Lasanha voltou a atuar depois de mais de 2 meses afastado*. E várias sensações voltaram à tona, sensações que achava que havia perdido, como não saber de que maneira os pacientes iriam se comportar, como entrar na sala de visitas, como aproximar-se do funcionários e como fazer minha maquiagem. O quanto borrei a maquiagem, não sabia mais como pintar o rosto e para completar, como fazer todo esse trabalho sem a Drª Risadinha ?
Mas como a letra da música, fui identificando as pessoas sentindo seus sorrisos sinceros, abraços apertados e a cada recepção calorosa sabia o quanto era bom estar ali de novo. A saudade era reciproca a cada pergunta: Onde você estava? Por que parou de vir? E a cada afirmação: Estava com saudade! Como é bom ver você aqui!
Cada canto uma surpresa, um amigo novo, um olhar de esperança, um bate-papo descontraído e uma brincadeira saudável. E para brilhar mais o retorno aparece a Drª Risadinha com seu sorriso carismático para encerrar o atendimento.
E depois de regressar, vejo que às visitas aos meus amigos no hospital fazem falta tanto quanto as pessoas que eu amo do meu convívio, deixando como resultado uma paz no coração.

* A ONG Canto Cidadão suspendeu o atendimento por um período devido ao Virús H1N1.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Sou todo ouvidos!!


Outra vez estou escrevendo a experiência de atuar sem a Drª Risadinha. Como todos sabem, sou o Drº Caboclinho Lasanha.
Estava muito compenetrado e minha visita foi calma e serena. Consegui realizar o príncipio do nosso trabalho: ouvir.
Haviam muitos pacientes que estavam de alta enquanto outros aguardavam a volta para casa no dia seguinte, pois era véspera de feriado. É por isso que decidi escrever não sobre os quartos, as clínicas, os pacientes, os funcionários e, sim, sobre as sensações que a vida proporciona.
Quantas coisas ótimas ouvi nesse dia, acontecimentos corriqueiros ou lembranças perdidas que acabamos deixando de lado no cotidiano da vida moderna. O aconchego da nossa casa, a proximidade constante da família, as lembranças da infância, o lugar que nascemos, uma festa familiar, os encontros com amigos, uma paixão, um verdadeiro amor.
Sensações que deveríamos valorizar sempre em nossas vidas.

O Drº Caboclinho foi para escutar. E acabou aprendendo!