Esse blog foi criado para divulgar o trabalho do Canto Cidadão, Organização Não Governamental (ONG), da qual a Drª Risadinha Risolina é voluntária. Nesta página você lerá textos que expressam as experiências que tenho vivido.



quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Conferência palhaceústica


A drª Risadinha, a Havolene e mais de 20 amigos Doutores Cidadãos viajaram juntos no último final de semana para Jaú, interior paulista. É claro que aproveitamos para visitar nossos amigos em dois hospitais da cidade. De cara, adoramos a hospitalidade do Centro de Voluntariado local e os funcionários. Parecia que éramos celebridades, mas os protagonistas já estavam lá dando o melhor de si para que todos ficassem bem em um momento tão delicado na vida de uma pessoa (funcionários, acompanhantes e os próprios pacientes, que são verdadeiras fortalezas).
Não me esquecerei de tantos bebês e pais babões e que no total de uns 20 recém-nascidos, apenas dois eram meninos. A concorrência vai ser grande (rs). Preparem-se meninas.
Não me esquecerei da felicidade de uma garotinha de apenas cinco anos dona de um sorriso lindo e da Irmã (freira)que topou até colocar o nariz vermelho.
Não me esquecerei do Zé, morador de rua, que era acompanhado por um franciscano, alguém que abriu mão de sua ‘vida’ para cuidar do próximo.
Não me esquecerei de tantas lições de vida que são aprendidas a cada atuação; da companhia e o aprendizado com meus amigos doutores; da injeção de fé do dr. Piolhopizza ; da acrodes,
Não me esquecerei da dança ao som das marchinhas de carnaval e da valsa; da cantoria antes e durante toda a viagem, para todos os gostos, de Mamomas Assassinas a Chico Buarque. Tadinho de quem nos ouvia freneticamente.
Não me esquecerei com certeza do “se eu não durmo ninguém dorme”, pois para garantir nem preguei o olho.
Não me esquecerei de muitas coisas, mas especialmente de que é inesquecível a sensação de estar em um lugar de corpo e alma realmente presentes.
Fora a beleza do lugar, a energia dessa galera é algo indescritível. E descobrir que felizmente cada doutor não é um mero personagem, mas a essência de cada um. Muitas vezes confundia o doutor com a pessoa. Que bom!
Me sinto privilegiada de conhecer essas pessoas e ter a oportunidade de partilhar momentos tão especiais com vocês doutores queridos. Acredito que a letra da música a seguir define muito bem a beleza da diferença e do novo e, especialmente, que é imprescindível vibrar e celebrar cada momento de nossa existência. Como cantaria Renato Russo (...) e mesmo com tudo diferente veio mesmo de repente uma vontade se ver (...) (Eduardo e Mônica)

Vamos Celebrar (Oswaldo Montenegro)

Eu gosto de andar pela rua
bater papo de lua e de amigo engraçado
Eu gosto do estilo do Zorro
o visual lá do morro e de abraço apertado
Eu gosto mais de bicho com asa
mais de ficar em casa e mais de tênis usado
Eu gosto do volume, do perfume
do ciúme, do desvelo e do cabelo enrolado
Eu gosto de artistas diversos
de crianças de berço e do som do atchim
Eu gosto de trem fora do trilho
de andar com meu filho e da cor do marfim
Tem gente, muita gente que eu gosto
que eu quase aposto que não gosta de mim
Eu gosto é de cantar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar... Vamos celebrar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar... Vamos celebrar
Eu gosto de artista circense
de artista que pense e de artista voraz
Eu gosto de olhar pra frente
de amar pra sempre o que fica pra trás
Eu gosto de quem sempre acredita
a violência é maldita e já foi longe demais
Eu gosto do repique do atabaque
do alambique badulaque do cachimbo da paz
Eu gosto de inventar melodia
da palavra poesia e de palavra com til
Eu gosto é de beijo na boca
de cantora bem rouca e de morar no Brasil
Eu gosto assim do canto do povo
e de tudo que é novo e do que a gente já viu
Eu gosto é de cantar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar... Vamos celebrar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar... Vamos celebrar
Eu gosto de atores que choram ali por nós
e namoram ali por nós na TV
Eu gosto assim de quem é eterno
de quem é moderno e de quem não quer ser
Eu gosto de varar madrugada
de quem conta piada e não consegue entender
Eu gosto da risada gargalhada
da beleza recriada pra que eu possa rever
Eu gosto de quem quer dar ajuda
e acredita que muda o que não anda legal
Eu gosto de quem grita no morro
que a alegria é socorro e que miséria é fatal
Eu gosto do começo do avesso
do tropeço do bebum que dança no carnaval
Eu gosto é de cantar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar... Vamos celebrar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar... Vamos celebrar
Eu gosto é de ver coisa rara
a verdade na cara é do que gosto mais
Eu gosto porque assim vale a pena
a nossa vida é pequena e tá guardada em cristais
Eu gosto é que Deus cante em tudo
e que não fique mudo morto em mil catedrais
Eu gosto é de cantar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar... Vamos celebrar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar... Vamos celebrar

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

“Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar...”

Perguntamos qual música Catarina (uma paciente afinada) gostaria de cantar e ela disparou...tentamos acompanhá-la, mas ela é imbatível.

Disparada (1966)
Letra de Geraldo Vandré /Música de Theo de Barros

Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar
Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar
E a morte o destino tudo, a morte o destino tudo
Estava fora de lugar, eu vivo pra consertar
Na boiada já fui boi, mas um dia me montei
Não por um motivo meu ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse, porém por necessidade
Do dono de uma boiada cujo vaqueiro morreu
Boiadeiro muito tempo, laço firme, braço forte
Muito gado, muita gente pela vida segurei
Seguia como num sonho e boiadeiro era um rei
Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo
E nos sonhos que fui sonhando, as visões se clareando
As visões se clareando, até que um dia acordei
Então não pude seguir, valente, lugar tenente
E o dono de gado e gente, porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente
Se você não concordar não posso me desculpar
Não canto pra enganar, vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado, vou cantar noutro lugar

Na boiada já fui boi, boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse, por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu, querer mais longe que eu
Mas o mundo foi rodando, nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei, agora sou cavaleiro
Laço firme, braço forte, de um reino que não tem rei

Na boiada já fui boi, boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse, por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu, querer mais longe que eu
Mas o mundo foi rodando, nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei, agora sou cavaleiro
Laço firme, braço forte, de um reino que não tem rei !
Cantamos parabéns para a estagiária Sandra.

domingo, 12 de outubro de 2008

Um dia sem a Drª Risadinha



*O relato a seguir é baseado em fatos reais, porém, os nomes das personagens são fictícios com o objetivo de preservar sua identidade.

Como o personagem Brás Cubas em “Memórias Póstumas”, ficarei feliz se ao menos cinco. Isto mesmo, cinco pessoas lerem essas poucas linhas mal escritas. Basta dizer que a autora oficial do Blog não pôde comparecer pela primeira vez com este fiel parceiro que vos escreve ao seu compromisso quinzenal, porém, esta falta não irá privar os leitores de mais um texto. Acompanhe um dia sem a Drª Risadinha.
Ao sair do elevador, uma funcionária se assustou com minha presença. Epa!!! Não posso começar com o pé esquerdo, pensei. Aí eu dei um pulo também fingindo ter me assustado, ela abriu um sorriso. Continuei pelo corredor. Cheguei à sala dos visitantes. Esta sala, na minha opinião, é um dos momentos mais delicados nas visitas, pois não temos nenhuma base da situação dos pacientes, e aí que está o perigo. Pessoas que estão esperando notícias boas ou ruins, diferente dos quartos, pois ao chegar perto dos pacientes sabemos o estado em que estão. Daí fica fácil saber se podemos incendiá-los (no bom sentido) com brincadeiras ou apenas doar um pouco de atenção.
Em frente à porta, pensei. Como eu entro? O que eu falo? A quem me dirijo primeiro? Pois quando se está em dois, tudo é mais fácil. Você escorrega e o outro te segura. Você erra, o outro corrige. Agora não, não poderia errar, não logo de cara. Ainda sem ter a mínima idéia de como entrar nessa sala, abaixei a cabeça e a solução apareceu como um passe de mágica. Tomei a decisão. Os meus “pequenos” sapatos de meio metro de comprimento entraram primeiro, comecei a balança-los escondendo meu corpo atrás do batente. Demorei alguns segundos e ouvi comentários e risadas, coloquei minhas mãos e cabeça também e logo depois o corpo inteiro. Todos que aguardavam estavam sorrindo. Ufa!!! Então comecei a conversar com todos e a brincar de maneira leve. Para fechar a história na sala de visitantes, chegou um menino de 1 ano e meio que no colo da mãe, começou a sorrir para mim, quando cheguei perto e ele colocou a mão no meu nariz vermelho, soltou uma gargalhada que ninguém agüentou e todos começaram a rir. A primeira etapa estava completa.
Saindo de lá, como de costume, fui à capela fazer uma oração e de lá desci para o 4º andar onde se localiza a clínica médica onde atendemos. Para completar o dia atípico, toda a equipe de plantão havia mudado, o que é bom, pois fazemos mais amizades.
Entrei no primeiro quarto, só haviam dois pacientes, um estava no banho, o outro estava acompanhado de uma mulher, ela estava quieta lendo uma revista, parecia não querer conversa, então fui chegando bem devagar e comecei a perguntar como estava o Marcos e quem ela era:
- Ele é meu marido.
Ele estava quieto, pois acabara de tomar medicamentos. Ela deixou a revista de lado e começou a conversar um pouco. Perguntei como eles se conheceram e da onde eles eram. Ela respondeu que eram baianos, primos, e que tinham dois filhos. Desabafou um pouco sobre a situação do marido e começou a conversar, depois agradeceu a visita e fui embora para o próximo quarto, já que o outro paciente ainda não havia saído do banho.
No quarto ao lado ouvi a história de Marieta, que veio de Portugal com 17 anos e que com 18 já estava tirando a carteira de habilitação. Adorava dirigir pela cidade, pouco asfaltada na época. Ela teve uma série de carros, desde Fusca até o atual Pálio. Lembra-se muito bem do primeiro carro, um Fusca OK. Adora o Brasil desde que chegou aqui e nunca pretendeu voltar para Portugal, nem para visitá-lo.
Costumo perguntar às pacientes se elas cozinham bem e o que elas melhor fazem quando estão em casa. Dependendo do prato a gente se convida, não é? Brincadeira!!!! É aí que entra a Dona Josefa com sua grande confissão: “cozinhei muitas vezes para o Dr. Jânio Quadros, eu era cozinheira dele quando era prefeito. Sei cozinhar um pouco de tudo”. Isso é pra você ver como o mundo é irônico. A ex-cozinheira do Jânio Quadros na minha frente e eu ainda sem jantar.
Mas como viver é aprender, incluindo estas cinco pessoas que vão ler o texto, vou lhes dar uma informação importante que recebi do paciente José Augusto, nascido em Irecê na Bahia. Fiquei sabendo que algumas décadas atrás, esta cidade chegou a responder por 30% da safra de feijão do país. Esta tradição deu o título à cidade de “Capital do Feijão”, mas o desmatamento e as queimadas, para preparar a terra, trouxeram secas à região diminuindo sua produção.
E foi assim, entrando de quarto em quarto, ouvindo belas histórias de vida, que trabalhei sem a Drª Risadinha. Como eu costumo pensar, quando você não sabe o caminho dê um passo de cada vez, afinal “É caminhando que se faz o caminho”.
Vou me despedindo de vocês que me agüentaram até este parágrafo, em recompensa desejo a vocês muito equilíbrio emocional, felicidade, paz e saúde.
Dr Caboclinho Lasanha

sábado, 13 de setembro de 2008

Anjo amigo


O relato a seguir é baseado em fatos reais, porém, os nomes das personagens são fictícios com o objetivo de preservar sua identidade.

Silvino tem 95 anos e uma lucidez de dar inveja a qualquer jovem de 15. No leito ao seu lado está Tom, um rapaz com pouco mais de 20 anos. Ambos se tornaram bons amigos. Tom disse que ajuda Silvino quando a filha dele não está por perto. Silvino fez questão de nos falar que Tom é um anjo.
O anjo amigo de seu Silvino por sua vez nos contou que aqueles dias no hospital haviam transformado sua vida. Nos revelou mais: era usuário de drogas, mas que ao sair dali nunca mais voltaria a usar. Ele considerava um milagre estar vivo e entendeu cada pessoa, cada funcionário, cada momento de sofrimento como sinais de que era necessário mudar. Segundo Tom não caiu um só fio de cabelo após a quimio e os médicos disseram que ele está praticamente curado. Sua vontade a partir de agora é contar tudo o que aconteceu com ele a outros jovens e criar seu filho, que nascerá daqui a três meses.
Tom é super animado e ama pagode, ainda mais Zeca Pagodinho. Acompanhado desses doutores aqui e seu Silvino de platéia cantou a seguinte música inteirinha. Só faltou ele sambar, como estava preso ao soro, mas nós fizemos isso por ele.

Aquilo Que Era Mulher (Zeca Pagodinho)

Aquilo que era mulher
Pra não te acordar cedo, saia da cama na ponta do pé
Só te chamava tarde sabia teu gosto, na bandeja café
Chocolate, biscoito, salada de fruta...suco de mamão
No almoço era filé mignom
Com arroz a lá grega, batata corada um vinho do bom
No jantar era a mesma fartura do almoço
E ainda tinha opção
É mais deu mole ela dispensou você
...Chegou em casa outra vez doidão
...Brigou com a preta sem razão
...Quis comer arroz doce com quiabo
...Botou sal na batida de limão
Deu lavagem ao macaco, banana pro porco, osso pro gato
Sardinha ao cachorro, cachaça pro pato
Entrou no chuveiro de terno e sapato, não queria papo
Foi lá no porão, pegou treisoitão
Deu tiro na mão do próprio irmão
Que quis lhe segurar, eu consegui lhe desarmar
Foi pra rua de novo, entrou no velório pulando a janela
Xingou o defunto, apagou a vela
Cantou a viúva mulher de favela, deu um beijo nela
O bicho pegou a polícia chegou
Um coro levou em cana entrou
E ela não te quer mais, bem feito