Esse blog foi criado para divulgar o trabalho do Canto Cidadão, Organização Não Governamental (ONG), da qual a Drª Risadinha Risolina é voluntária. Nesta página você lerá textos que expressam as experiências que tenho vivido.



domingo, 18 de outubro de 2009

A Volta


“Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade”.

É com a música do Nando Cordel na cabeça que o Drº Caboclinho Lasanha voltou a atuar depois de mais de 2 meses afastado*. E várias sensações voltaram à tona, sensações que achava que havia perdido, como não saber de que maneira os pacientes iriam se comportar, como entrar na sala de visitas, como aproximar-se do funcionários e como fazer minha maquiagem. O quanto borrei a maquiagem, não sabia mais como pintar o rosto e para completar, como fazer todo esse trabalho sem a Drª Risadinha ?
Mas como a letra da música, fui identificando as pessoas sentindo seus sorrisos sinceros, abraços apertados e a cada recepção calorosa sabia o quanto era bom estar ali de novo. A saudade era reciproca a cada pergunta: Onde você estava? Por que parou de vir? E a cada afirmação: Estava com saudade! Como é bom ver você aqui!
Cada canto uma surpresa, um amigo novo, um olhar de esperança, um bate-papo descontraído e uma brincadeira saudável. E para brilhar mais o retorno aparece a Drª Risadinha com seu sorriso carismático para encerrar o atendimento.
E depois de regressar, vejo que às visitas aos meus amigos no hospital fazem falta tanto quanto as pessoas que eu amo do meu convívio, deixando como resultado uma paz no coração.

* A ONG Canto Cidadão suspendeu o atendimento por um período devido ao Virús H1N1.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Sou todo ouvidos!!


Outra vez estou escrevendo a experiência de atuar sem a Drª Risadinha. Como todos sabem, sou o Drº Caboclinho Lasanha.
Estava muito compenetrado e minha visita foi calma e serena. Consegui realizar o príncipio do nosso trabalho: ouvir.
Haviam muitos pacientes que estavam de alta enquanto outros aguardavam a volta para casa no dia seguinte, pois era véspera de feriado. É por isso que decidi escrever não sobre os quartos, as clínicas, os pacientes, os funcionários e, sim, sobre as sensações que a vida proporciona.
Quantas coisas ótimas ouvi nesse dia, acontecimentos corriqueiros ou lembranças perdidas que acabamos deixando de lado no cotidiano da vida moderna. O aconchego da nossa casa, a proximidade constante da família, as lembranças da infância, o lugar que nascemos, uma festa familiar, os encontros com amigos, uma paixão, um verdadeiro amor.
Sensações que deveríamos valorizar sempre em nossas vidas.

O Drº Caboclinho foi para escutar. E acabou aprendendo!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Meus 12 anos


*O relato a seguir é baseado em fatos reais, porém, os nomes das personagens são fictícios com o objetivo de preservar sua identidade

Catarina mora há 30 anos em São Paulo, mas é baiana. Nos contagiamos com seu entusiasmo e, isso, porque acabara de ter uma forte febre. Ela nos contou a primeira vez que ela, com 12 anos, os irmãos e amigos conheceram a cidade mais próxima, que hoje considera pequena. Até então nunca tinham saído da roça onde moravam no sertão nordestino.
Todo mundo subiu no caminhão, o conhecido pau de arara. Eis que no meio do caminho o motorista parou e foi logo perguntando aos passageiros de primeira viagem.
- Quem nunca foi à cidade?
As crianças, inclusive Catarina foram levantando os braços ansiosos.
Passageiros: -Eu, eu, eu...
Motorista: - Pois então, quem nunca foi precisa pegar um pedaço de bosta de gado (isso mesmo que estão pensando) e uma pedrinha e guardar no bolso. Daí antes de entrarem na cidade coloquem na boca para que os dentes não caiam.
Catarina: - Ao menos a bosta era seca (risos).
Os inocentes trataram logo de pegar os ‘objetos recomendados’ e guadaram nos bolsos, mas para a sorte deles graças a Deus existem as mães que impediram os benditos de comerem bosta de vaca só para conhecer a cidade grande.
- Menina pára com isso, esse homem é um besta.
Enquanto isso na cabine do velho caminhãozinho o motorista ria sozinho da travessura. Parece que ele também não deixou de ser criança.
Mas a história de Catarina não termina por aí, ela se lembrou de vários casos desse dia de aventura.
Catarina: - Tinha um vizinho que experimentou sorvete e gostou tanto que resolveu levar uns para a esposa e os filhos. Mas como não estava acostumado com a novidade colocou nos bolsos...quando nos encontramos para ir embora, um senhor perguntou: - Mais Gesivaldo tu fez xixi nas calças? - Não rapaz é que comprei uns geladinhos para a mulher e as crianças, mas virou água.

No outro quarto...A fuga
Não é raro encontrar pacientes pelos corredores dando uma voltinha para esticar as canelas e sempre soltamos – Não vai fugir hein? Mas conversando com Celso... e papo vai papo e vem descobrimos que ele realmente já fugiu do hospital. Crianças não tentem fazer isso. Ele nos contou que o fato aconteceu na primeira internação, pois estava aflito em permancer no hospital. A estratégia dele vale uma cena de filme. Se trocou no banheiro, despistou os funcionários, entrou na administração na calada da noite, pulou uma janela que dava para a rua e foi embora. Momentos depois o celular de Celso toca ... era o pessoal do hospital desesperados.
Celso onde você está? Vamos te buscar.
Não aguentei ficar aí. Estou em casa, amanhã volto.
E, assim, ele voltou por conta própria e admitiu que isso não foi bom, pois apesar das dificuldades do tratamento sua atitude foi uma forma de fugir de seu problema

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Iolanda


Hoje faço questão de escrever em nome de uma amiga muito especial: a Drª Canelopsita. Em um de seus atendimentos a doutora conheceu Raul, que chamava atenção porque manuseava seu laptop. A Canelopsita já foi falando:
Que chique, só na net...

Raul: Não estou podendo tanto. O hospital ainda não tem wireless (risos).

Enquanto isso, Raul ouvia Beber, Cair e Levantar... (ritmo que não bate muito com o gosto musical da Drª Canelopsita,pois ela acredita que induz ao exagero. Mas o que não se ouve por um a amigo, né?)
Terminada a visita, a Drª Canelopsita e sua companheira Drª Empativi foram para o quarto das meninas. Lá, conheceram dona Iolanda, de setenta e poucos anos. De cara, a doutora foi logo dizendo.

A senhora é musa inspiradora, hein? Sabe que tem uma música só sua?

Dona Iolanda:
Não sabia, qual é a música?

Drª Canelopsita: Não acredito que não conhece. Pera aí, pois vamos cantar.

Mas de repente... deu um branco nas doutoras e nada fazia com que elas se lembrassem da letra, nem um trechinho. E agora? Pensaram. Ficaram meio sem graça, mas a Canelopsita olhou bem nos olhos da nova amiga e fez uma promessa para Iolanda.

Drª Canelopsita: Antes de sair desse hospital hoje volto para cantar essa música para a senhora.

E não sei porque cargas d’água, as doutoras resolveram voltar no quarto do Raul. Ah, acho que foi para conhecer um hóspede recém-chegado. E de repente, o cara que ouvia Beber, Cair e Levantar estava ouvindo sabe o quê?

Iolandaaaaaaaaa.

Nossa, as doutoras pularam de alegria e, logo, confiscaram o laptop de Raul, que ainda tirou uma da cara Drª Canelopsita:

- Tenho quatro versões. Qual você prefere?
Melhor nem dizer que a doutora ficou de queixo caído, mas muito feliz também.
Eis que enfim levou o aparelho para Iolanda ouvir sua música.
É bom enfatizar que a essa altura a doutora ainda não estava convencida que ela não conhecia a música, mas que apenas se esquecera também.
Ah, e vamos para os finalmente (rs).

E a senhora de mais de 70 anos realmente ouviu pela primeira vez sua música... e chorou de emoção como todos em sua volta.

Iolanda
Chico Buarque
Composição: Pablo Milanés


Esta canção não é mais que mais uma canção
Quem dera fosse uma declaração de amor Romântica,
sem procurar a justa forma
Do que lhe vem de forma assim tão caudalosa
Te amo,
te amo,
eternamente te amo

Se me faltares, nem por isso eu morro
Se é pra morrer, quero morrer contigo
Minha solidão se sente acompanhada
Por isso às vezes sei que necessito
Teu colo,
teu colo,
eternamente teu colo

Quando te vi, eu bem que estava certo
De que me sentiria descoberto
A minha pele vais despindo aos poucos
Me abres o peito quando me acumulas
De amores,
de amores,
eternamente de amores

Se alguma vez me sinto derrotado
Eu abro mão do sol de cada dia
Rezando o credo que tu me ensinaste
Olho teu rosto e digo à ventania

Iolanda, Iolanda, eternamente Iolanda

O momento não tenho e nem preciso descrever que foi de pura emoção. E a Drª Canelopsita aprendeu algumas lições: nunca subestimar alguém com gosto musical diferente do dela e que nunca estamos sós, há sempre uma força que nos guia. Alguns anjinhos voando por aí...